Símbolo correto da Medicina
1. Símbolo
Asclépio
A Contribuição da
Mesopotâmia (3.000 a. C.)
O símbolo da
medicina, uma cobra enrolada num cajado,
originou-se na antiga Mesopotâmia há cerca de
cinco mil anos. A água, pela sua importância na
vida de animais e vegetais influía na formação
de conceitos de vida e morte. Todas as cidades
apenas viviam as margens de grandes rios.
Diversos deuses, como dos cosmos, senhores dos
céus, da terra e da água eram venerados e o
homem devia ser servil e obediente. O pensamento
primitivo do homem era mágico e místico. Era
crença de que os deuses criaram o Céu e a Terra
e depois o homem. Este foi feito do barro e
misturado com ar e sangue de um deus morto para
este propósito. Esta é a razão da crença
mesopotâmica de que os deuses estavam presentes
em todo ser vivo. Os seres humanos foram feitos
para servir aos deuses e aos governantes,
venerando-os e construindo templos. Aqueles que
eram obedientes eram protegidos e aqueles que
eram desobedientes eram esquecidos e acometidos
de doenças. A magia era a principal medida
terapêutica, a qual também era utilizada para a
obtenção de chuva para a colheita. Após o
domínio dos assírios e babilônicos sobre a
Mesopotâmia, os costumes, leis e doutrinas dos
sumérios foram adotados na região. A cidade da
Babilônia tornou-se o centro de cultos
religiosos que atribuíam poder a tríade Água,
Terra e Céu. O deus mais antigo eram SIN, o qual
cuidava do crescimento de ervas curativas, as
quais não deviam ser expostas ao sol. Em torno
de 2000 a.C. estabeleceu-se a primeira dinastia
babilônica, com o reinado de HAMMURABI
(1792-1750), o qual elaborou um código, onde
dizia que a doença causada em alguma pessoa por
outra pessoa, poderia ser compensada conforme
alguns artigos:
Art. 196 "Se ele
quebrar um osso de seu patrício, seu osso deve
ser quebrado."
Art. 197 "Se um homem destruir o olho de seu
patrício, seu olho deve ser destruído".
Ningishizida
Os sumérios,
iniciadores da religião mesopotâmica, tinham
entre seus deuses, NINGISHIZIDA, deus da cidade
de Gishibanda, perto de Ur, no sul da
Mesopotâmia. Seu nome significa "deus protetor
das plantas" e era representado com duas
serpentes crescendo de seus ombros. Os sumérios
consideravam a serpente, chamada SACHAN, um
símbolo de juventude e saúde, pois além de
trocar a pele, rejuvenescendo-se, vivia próximo
das profundezas da terra, onde habitava EA,
deusa das águas e da saúde. Mais tarde o símbolo
da saúde e medicina passou a ser representado
por uma serpente com duas cabeças enroladas em
um cajado ou um galho de uma planta. Esta
simbologia foi transmitida até o reinado de
HAMMURABI, o qual, retirou uma serpente do
símbolo, ficando apenas uma serpente enrolada
num cajado. Os historiadores divergem quanto as
razões desta mudança, havendo alguns que
acreditam que talvez tenha sido um plano real de
combate a inflação da época enquanto que outros
acreditam que o rei, temeroso da popularidade da
classe médica - todos muitos estudiosos e
competentes -. tentou diminuir o seu prestígio
para assim poder pagar baixos salários a estes
profissionais. Este símbolo foi transmitido para
a civilização grega oito séculos mais tarde, que
incorporou conceitos da religião mesopotâmica
para sua mitologia.
A Mitologia Grega
2. Símbolo
Hermes
A mitologia é a
narrativa de uma criação, sendo uma
representação coletiva transmitida através de
gerações e que relata uma explicação e expressão
do mundo e da realidade humana. Na tentativa de
explicar o mundo e o homem que formam a
complexidade do real, a mitologia deixa de ser
lógica, passa a ser ilógica e até irracional.
Fica aberta a versões, mudanças e
interpretações. Ao decifrar um mito, o homem
tenta decifrar a si mesmo. Foi esta forma de
pensamento que criou a busca do conhecimento
interior dos tempos modernos, através de CARL
JUNG (1875 - 1961) e o inconsciente coletivo e
SIGMUND FREUD (1856-1939) e o complexo de Édipo.
Mas para quem gosta de história e já foi
analisado ou não precisa de analista, a
mitologia grega é bela e completa, pois desvenda
tudo sobre o ser humano. Na religião o homem se
torna humilde e, através da fé, uma emoção e uma
força ainda pouco conhecida embora muito usada,
reconhece e manifesta sua dependência em relação
a DEUS, um ser invisível e perfeito. Através da
ciência, o homem busca esta perfeição e o
domínio de tudo, buscando a onipotência podendo
até ignorar a humildade, embriagado pelo
conhecimento e pela vaidade. E se esquece que
enquanto a ciência traz o conhecimento, a
religião e a fé permitem ao homem conhecer a
sabedoria e a paz. Mas na mitologia o homem
realiza todos seus desejos religiosos e
científicos, pois cria seus mitos concebidos
como história verdadeira. Ele humaniza o mundo
natural e sobrenatural e valoriza, dá confiança
e esperança ao homem mortal. Afinal, qual o ser
humano que não quer se tornar um mito?.
Enquanto que nas
civilizações vizinhas os deuses inspiravam temor
e medo, na mitologia grega os deuses inspiravam
uma sensação de segurança. Os gregos dotavam
seus deuses de atributos semelhantes aos seus,
isto é, de corpos humanos e de fraquezas e
desejos humanos. Eram deuses feitos a imagem e
semelhança do homem. Imaginavam uma grande
família de divindades a brigar entre si,
necessitando de alimentos especiais e do sono.
Misturavam-se livremente com os homens e até
tendo filhos de mulheres mortais. Os deuses
diferiam dos homens por se alimentarem de néctar
e ambrósia, o que lhes conferia imortalidade.
Não moravam no céu, mas no alto do Monte Olimpo,
um pico no norte da Grécia de 3.000 metros de
altura. Na mitologia grega, não foram os deuses
que criaram o universo, mas o universo que criou
os deuses. A primeira fase do universo envolve a
história do CAOS de onde saíram, além de
TÁRTARO, o local mais profundo das entranhas da
terra, abaixo dos próprios infernos, EROS, deus
do amor e GÉIA (Terra), que gerou URANO, o qual
deu nascimento aos deuses. Na primeira geração
divina URANO (Céu) se une a GÉIA (Terra) dando
origem a numerosa descendência: TITÃS, TITÂNIDAS,
CÍCLOPES, HECATONQUIROS e outros como CRONO
(Tempo), MUSA, ERÍNIA, etc. Embora de origem
divina, surgiram mortais como os GIGANTES e
divindades secundárias que não moravam no Olimpo,
como as NINFAS. A primeira geração divina se
fecha com AFRODITE após uma longa e importante
descendência nascidas de URANO e GÉIA. A segunda
geração divina relata CRONO e seus descendentes,
que, após de casar com sua irmã RÉIA, deu origem
a HÉSTIA, HERA, DEMÉTER, HADES, POSÍDON (ou
POSEIDON) e ZEUS. A terceira geração divina
aborda ZEUS e sua luta pelo poder. Quando
atingiu a idade adulta, ZEUS iniciou uma longa e
terrível luta contra seu pai CRONO e seus tios,
os TITÃS. Terminada a refrega, três grandes
deuses receberam por sorteio seus respectivos
domínios: ZEUS obteve o céu, POSÍDON, o mar e
HADES, o mundo subterrâneo. Mas a supremacia do
universo pertencia a ZEUS, que passou a ser
considerado o deus do céu e controlador dos
raios, o pai dos deuses e dos homens. Além de
ZEUS, moravam no OLIMPO outros deuses, num total
de doze: ZEUS, seus dois irmãos POSÍDON e HADES,
sua irmã HESTIA, sua esposa HERA, esposa
legítima e protetora das esposas do amor
legítimo, embora ciumenta, vingativa e violenta.
Vivia irritada pela infidelidade de ZEUS que
teve inúmeros casos e filhos com diversas
mulheres, deusas e mortais, sendo um de seus
filhos HÉRACLES - HÉRCULES do latim - com
ALCMENA. HÉRACLES foi uma das vítimas prediletas
da perseguição de HERA, que impôs ao herói os
célebres DOZE TRABALHOS. Também moravam no
OLIMPO outros deuses como ARES, deus da guerra e
filho ZEUS e HERA, além de outros filhos e
filhas, como ATENÁ (ou ATENAS), filha de ZEUS
com sua primeira esposa MÉTIS, APOLO, filho de
ZEUS com a divindade oriental LETO, AFRODITE,
filha de ZEUS com DIONE, HERMES, filho de ZEUS e
MAIA, ARTEMIS, irmã de APOLO e HEFESTOS, outro
filho de ZEUS e HERA, mas fruto de uma união sem
amor, pois veio ao mundo por cólera e desafio de
HERA ao esposo, que o gerou sozinha. Quase todas
as divindades eram capazes tanto do bem como do
mal, pois as vezes enganavam os homens e os
induziam ao erro.
Hermes
HERMES era filho
de ZEUS com MAIA, uma das sete filhas de ATLAS e
a mais jovem das Plêiades. HERMES nasceu no dia
4 (número lhe era consagrado) numa caverna do
monte Cilene, sendo enfaixado e colocado no vão
de um salgueiro, árvore sagrada, símbolo da
fecundidade e da imortalidade, mas logo
revelando uma precocidade extraordinária. No
mesmo dia de seu nascimento, libertou-se das
faixas e viajou até a Tessália, onde furtou
parte do rebanho de ADMETO, guardado por APOLO
que cumpria uma punição. Com os animais com
galhos amarrados na cauda, apagou seu rastro e
foi para a gruta de Pilos. Lá sacrificou duas
novilhas aos deuses, dividindo-as em doze
porções, embora os imortais fossem apenas onze
até então: o menino-prodígio acabava de se
promover a décimo segundo deus do Olimpo.
Após esconder o
resto do rebanho, regressou a Cilene, onde matou
uma tartaruga, arrancando sua carapaça, com a
qual fez uma lira, usando as tripas de novilhas
sacrificadas como cordas. APOLO descobriu e
acusou o ladrão a MAIA, a qual negou o furto e
protegeu seu filho recém-nascido, como uma
verdadeira super-mãe. APOLO então recorreu a
ZEUS, que constatou a mentira do filho e o
obrigou a prometer que nunca mais faltaria com a
verdade. HERMES concordou acrescentando que não
estaria obrigado a dizer a verdade por inteiro.
HERMES encantou a todos com o som de sua lira, a
qual trocou pelo resto do rebanho furtado. A
seguir, HERMES inventou a flauta de Pã ("syrinks"),
que despertou a cobiça e o desejo de APOLO de
possuí-la e, para tal, lhe ofereceu o cajado de
ouro - o caduceu - que passou a figurar como seu
símbolo e atributo. HERMES é uma divindade
complexa, que inicialmente era um deus agrário,
protetor dos pastores nômades e dos rebanhos,
sendo também representado com um carneiro sobre
os ombros. Mas os gregos ampliaram suas funções
e, por ter furtado o rebanho de APOLO, ele se
tornou um símbolo de tudo quanto implica em
astúcia, ardil trapaça, sendo conhecido como um
verdadeiro amigo e protetor dos comerciantes e
dos ladrões. Era mencionado como o Senhor dos
que realizam seus negócios durante a noite, às
escuras, cujo significado é bem claro. Protetor
dos viajantes, era o deus das estradas, as quais
cuidava e por onde andava com incrível rapidez,
pelo fato de usar sandálias de ouro, providas de
asas.

Pela sua rapidez,
tornou-se mensageiro predileto dos deuses,
principalmente de seu pai, ZEUS. Por sua astúcia
e inteligência, sua capacidade de se tornar
invisível ao usar o capacete de HADES e de
viajar por todos os lugares com incrível
velocidade, fez boas ações também. Recompôs
fisicamente seu pai ZEUS, roubando os tendões
que lhe arrancara o monstruoso TIFÃO e salvou a
ULISSES e seus companheiros, já transformados em
animais pela feiticeira CIRCE. Como intérprete
da vontade dos deuses, entregou a lira a ANFIÃO,
a espada a HÉRACLES, a PERSEU o capacete de
HADES. Adormeceu e matou o gigante ARGOS de cem
olhos, o guardião a vaca IO e levou ao monte IDA
as três deusas HERA, ATENÁ e AFRODITE para que o
pastor PÁRIS fosse o árbitro na magna querela de
quem era a mais bela das imortais, escolha que
resultou na Guerra de Tróia. Também conduziu
PSIQUÉ ao monte Olimpo para se casar com EROS.
HERMES teve muitos amores e vários filhos, sendo
o mais importante de todos HERMAFRODITO, que
teve com AFRODITE. A iconografia de HERMES
apresenta-o com um chapéu de formato especial ("pétasos"),
com sandálias providas de asas e segurando um
caduceu com duas serpentes entrelaçadas em
sentido inverso na parte superior. O caduceu (do
grego "kerykeion") significa bastão e um arauto.
O símbolo das duas serpentes, a direita e a
esquerda, são de aspecto simbólico com o diurno
e o noturno, o benéfico e o maléfico. Elas
simbolizam o equilíbrio das tendências
contrárias em torno do eixo do mundo,
representando um símbolo da paz e da divindade
do seu portador. Na época clássica da Grécia, o
caduceu recebeu duas asas encima, transcendendo
suas origens, vindo por isto a ser muitas vezes
usado para representar o emblema da medicina,
mas de forma incorreta.
Mercúrio

À medida que Roma
ia entrando em contato com a civilização grega,
a partir do Século V a C , a mitologia grega e
seus deuses foram naturalizados romanos. ZEUS
virou JÚPITER, POSEIDON virou NETUNO, HADES
virou PLUTÃO, HESTIA virou VESTA, HERA virou
JUNO , ARES virou MARTE, ATENA virou MINERVA,
APOLO continuou APOLO, AFRODITE virou VÊNUS,
HERMES virou MERCÚRIO, ARTEMIS virou DIANA e
HEFESTOS virou VULCANO. Em torno do século III a
C foi plagiado diretamente da Grécia o
deus-médico ASCLÉPIOS, que recebeu o nome de
ESCULÁPIO. As imagens dos deuses gregos
naturalizados romanos eram preservadas ou
levemente modificadas. O velho culto da religião
romana foi sofrendo uma grande concorrência com
a suntuosidade litúrgica que acompanhava o culto
das divindades helênicas. Em resposta a esta
invasão da mitologia e religião estrangeiras, os
romanos conservadores criaram deuses nacionais
frutos de uma grande imaginação: a construção de
esgotos (CLOACA MAXIMA ) introduziu o culto da
deusa DEA CLOACINA , a cunhagem de moedas de
prata leva a introdução do culto do deus
ARGENTINUS e o envio das primeiras esquadras
romanas ao Mediterrâneo cria o culto da deusa
TEMPESTAS, dentre inúmeros outros deuses criados
a partir de idéias abstratas, como FIDES (Boa
Fé), VICTORIA (Vitória), SPES (Esperança) e
LIBERTAS (Liberdade). HERMES latinizado para
MERCÚRIO tem seu nome originário da palavra
MERCES, mercadoria. O caduceu de HERMES foi
transmitido para MERCÚRIO, entrelaçado de duas
serpentes, de sorte que a parte superior forma
um arco, possuindo duas extremidades de asas.
Esta semelhança de símbolos fez com que se
estabelecesse enorme confusão com o símbolo da
medicina e mesmo com a fama dos médicos, a qual
é muitas vezes confundida com as condutas
desonestas e irregulares da dupla
HERMES/MERCÚRIO, incluindo relação de
comercialização da medicina, pela origem da
palavra.
Asclépio, Deus
Grego da Medicina

ASCLÉPIO (da
língua grega) ou ESCULÁPIO (da língua latina)
constituiu-se no grande nome da medicina grega
pré-Hipocrática. Viveu em torno de 1200 a.C. e
acreditava-se que era dotado de poderes
extraordinários na arte de curar. Asclépio era
filho do deus APOLO com a ninfa mortal CORÔNIS,
filha de FLÉGIAS, rei dos lápitas. Esta, temendo
que o rei, eternamente jovem, por ser imortal, a
abandonasse na velhice, uniu-se, embora grávida,
a ÍSQUIS, que foi morto por APOLO. A seguir
CORÔNIS foi morta a flechadas por ARTÊMIS, irmã
de APOLO, atendendo ao pedido do irmão. Mas com
a morte de sua mãe, ASCLÉPIO foi extraído de seu
seio e enviado ao centauro QUIRON que lhe
ensinou a arte da medicina. Chegou mesmo a
ressuscitar vários mortos, como CAPANEU,
LICURGO, GLAUCO e HIPÓLITO, filho de TESEU,
usando o sangue que correra das veias do lado
direito da Medusa, presente numa poção que
recebeu da deusa ATENÁ. Por ser dotado desta
grande capacidade, ZEUS, temendo que ele
tornasse todos os homens imortais, mudando a
ordem do mundo e deixasse HADES vazio, matou-o
com um raio. Segundo outros historiadores,
ASCLÉPIO era um médico muito competente mas
muito avarento e ganancioso, querendo apenas
fama e fortuna, sendo por isto castigado. Mais
tarde ZEUS arrependeu-se e o perdoou.
Transformou-o então num deus, como prêmio pela
sua inteligência e astúcia. ZEUS acreditava que
todo homem que se dedicasse à prática da
medicina com amor, demonstrando o seu interesse
pela humanidade, merecia ser recompensado. Com
um amigo assim influente e como a medicina da
época ainda era envolta numa prática sacerdotal,
ASCLÉPIO transformou-se no deus grego da
medicina sendo templos e santuários construídos
em sua homenagem. ASCLÉPIO teve dois filhos que
também eram médicos, PODALÍRIO E MACÁON, que
faziam parte do exército invasor que cercou a
cidade de TRÓIA. Em variantes posteriores, de
seu casamento com EPÍONE, nasceram mais quatro
filhas, ÁCESO (a que cuida de), IASO (a cura),
PANACÉIA (a que socorre a todos) e HIGIA (a
saúde). Trabalhou em Epidauro, onde foi
construído o primeiro templo em sua homenagem. A
seguir surgiram também templos em Cos, Atenas,
Pérgamo e Cnidos. Estes templos eram denominados
"Asclepeions". Neles praticavam
sacerdotes-médicos que eram depositários dos
conhecimentos científicos transmitidos de
geração em geração pelos sacerdotes-médicos, que
eram denominados de "Asclepiades" ou
descendentes de ASCLÉPIO, cuja maior figura
viria a ser HIPÓCRATES (460-370 a.C.), alguns
séculos mais tarde. ASCLÉPIO (Esculápio) é
freqüentemente representado sentado, vestindo um
manto longo com o tórax exposto, com um cajado
com uma serpente como o símbolo da medicina.
Este símbolo é freqüentemente confundido com o
símbolo de HERMES e MERCÚRIO, por influência de
pessoas invejosas dos médicos que comparavam a
medicina a um comércio, devido a origem do nome
e atitudes irregulares de Hermes e Mercúrio, que
algumas vezes agiam e interferiam na vida dos
deuses e dos homens como um verdadeiro mau
caráter. A semelhança dos símbolos criou até
mesma uma confusão na imagem dos médicos,
criando uma grande injustiça com a mais nobre
das profissões praticadas pelo ser humano.
Afinal, existem no mundo apenas dois tipos de
pessoas: médicos e pacientes. Quem não for
médico, cedo ou tarde será paciente. E vice
versa. Daí a importância em se conhecer a
História da Medicina.
O Caduceu

O caduceu é
comumente usado como o símbolo do comércio e dos
viajantes, sendo por isso utilizado em emblemas
de associações comerciais, escolas de comércio,
escritórios de contabilidade e estações de
estradas de ferro. No intercâmbio da civilização
grega com a egípcia, o deus THOTH da mitologia
egípcia foi assimilado a HERMES e, desse
sincretismo, resultou a denominação de Hermes
egípcio ou HERMES TRISMEGISTOS (três vezes
grande), dada ao deus THOTH, considerado o deus
do conhecimento, da palavra e da magia. No
panteão egípcio, o deus da medicina
correspondente a ASCLEPIUS é IMHOTEP (que
significa "Eu venho em paz"). Entre o século III
a.C. e o século III d.C. desenvolveu-se uma
literatura esotérica chamada hermética, em
alusão a HERMES TRISMEGISTOS. Esta literatura
versa sobre ciências ocultas, astrologia e
alquimia, e não tem qualquer relação com o
HERMES tradicional da mitologia grega. O
sincretismo entre HERMES da mitologia grega com
HERMES TRISMEGISTUS resultou no emprego do
caduceu como símbolo deste último, tendo sido
adotado como símbolo da alquimia. Da alquimia o
caduceu passou para a farmácia e desta para a
medicina. A confusão entre o bastão de ASCLÉPIO
e o caduceu de HERMES se deve à iniciativa de um
editor suíço de grande prestígio, JOHAN FROEBE,
no século XVI, o qual adotou para a sua editora
um logotipo inspirado no caduceu de HERMES,
usando-o associado a obras clássicas de
medicina, como as de HIPÓCRATES. Outros editores
na Inglaterra e, posteriormente, nos Estados
Unidos, utilizaram emblemas semelhantes,
contribuindo para a difusão do caduceu de forma
incorreta. Acredita-se que a intenção dos
editores tenha sido a de usar um símbolo
identificado com a transmissão de mensagens, já
que Hermes era o mensageiro do Olimpo. Com a
invenção da imprensa por JOHANNES GUTENBERG, a
informação passou a ser transmitida por meio da
palavra impressa, e eles, os editores, seriam os
mensageiros dos autores. Outra hipótese é de que
o caduceu tenha sido usado equivocadamente como
símbolo de HERMES TRIMEGISTOS, o Hermes egípicio
ou THOTH, deus da palavra e do conhecimento, a
quem também se atribuía a invenção da escrita.
Em antigas prensas utilizadas para impressão
tipográfica encontra-se o caduceu de Hermes como
figura decorativa.
A confusão e troca
dos símbolos levando até a criação do caduceu
comercial e do caduceu médico foi se firmando
até que em 1901, o exército francês fundou um
jornal de cirurgia e de medicina chamado LE
CADUCÉE, no qual estão estampadas duas figuras
estilizadas do símbolo de ASCLÉPIO, com uma
única serpente. Desde então, a palavra CADUCEU
tem sido usada para nomear tanto o símbolo de
HERMES, quanto o de ASCLÉPIO de forma incorreta.
Mas o que mais contribuiu para a difusão do
CADUCEU de HERMES como símbolo da medicina foi a
sua adoção pelo Exército norte-americano como
insígnia do seu departamento médico, devido
desconhecimento da história da medicina e da
mitologia grega por parte dos que detinham o
poder para promover a mudança. O CADUCEU fora
usado, entre 1851 e 1887, como emblema no
uniforme de trabalho do pessoal de apoio nos
hospitais militares dos Estados Unidos para
indicar a condição de não combatente. Em 1887
este emblema foi substituído por uma cruz
vermelha idêntica a da Cruz Vermelha
Internacional fundada na Suíça em 1864. Os
oficiais médicos usavam nas dragonas as letras
M.S. (MEDICAL STAFF). Em 1872, as letras M.S.
foram substituídas por M.D. (MEDICAL DEPARTMENT).
O Departamento Médico, contudo, possuía o seu
próprio brazão de armas com o bastão de
ASCLÉPIOS, desde 1818. Em março de 1902, os
oficiais médicos passaram a usar um emblema
inspirado na cruz dos cavaleiros de São João, ou
cruz de Malta, cujo simbolismo em heráldica é o
de proteção, altruísmo e honorabilidade. Em
março de 1902, o capitão FREDERICK P. REYNOLDS,
Comandante da Companhia de Instrução do Hospital
Geral em Washington propôs substituir a cruz de
Malta pelo CADUCEU. O general G. STERNBERG,
chefe do Departamento Médico, deu o seguinte
despacho: "A atual insígnia foi adotada após
cuidadoso estudo e é atualmente reconhecida como
própria desta corporação. A alteração proposta,
portanto, não é aprovada". Em 14 de junho do
mesmo ano, o capitão Reynolds endereçou nova
carta ao Chefe do Departamento, refazendo sua
proposta com novos argumentos. Em certo trecho
de sua carta diz o seguinte: "Desejo
particularmente chamar a atenção para a
conveniência de mudar a insígnia da cruz para o
caduceu e de adotar o marrom como a cor da
corporação, em lugar do verde agora em uso. O
caduceu foi durante anos a insígnia de nossa
corporação e está inalienavelmente associado às
coisas médicas. Está sendo usado por várias
potências estrangeiras, especialmente a
Inglaterra. Como figura, deve-se reconhecer que
o caduceu é muito mais gracioso e significativo
do que o atual emblema" (cruz de Malta). "O
verde não tem lugar na medicina". Nesse ínterim,
houve mudança na Chefia do Departamento Médico e
esta segunda carta foi recebida pelo General W.
H. FORWOOD, quem, não somente aprovou a proposta
como providenciou a confecção da nova insígnia.
O desenho elaborado tem sete curvaturas das
serpentes, o que também revela desconhecimento
do caduceu tradicional, que contém, no máximo,
cinco espirais.
Insígnia do
Army Medical Department - U.S.A.
Os argumentos
usados pelo Cap. REYNOLDS revelam sua confusão
entre os dois símbolos. O caduceu jamais fora a
insígnia da corporação, mas do pessoal de apoio
(steward) dos hospitais. O bastão de ASCLÉPIO e
não o CADUCEU é que está historicamente
associado à medicina. Tanto na Inglaterra, como
na França e na Alemanha, os serviços médicos das
forças armadas utilizavam o bastão de ASCLÉPIO
em seus emblemas e não o CADUCEU de HERMES. A
cor verde tem sido usada em conexão com a
medicina; tanto assim que no Brasil o anel de
médico tem, incrustada, uma pedra verde -
esmeralda ou imitação. Assim o CADUCEU foi
implantado e se mantém até hoje como insígnia do
Corpo Médico do Exército norte-americano, o que
muito contribuiu, sobretudo após a Primeira
Grande Guerra Mundial (1914-1918), para a sua
difusão, dentro e fora dos Estados Unidos, como
símbolo da medicina. A Marinha norte-americana
adotou igualmente o CADUCEU como emblema de seu
corpo médico, ao contrário da Força Aérea, que
mantém em seu emblema o bastão de ASCLÉPIO. Os
Serviços de Saúde Pública dos Estados Unidos,
por sua vez, adotaram um antigo emblema do
Serviço Médico da Marinha, no qual o CADUCEU se
cruza com uma âncora e cujo simbolismo anterior
era o do comércio marítimo. O primeiro
comentário desfavorável à decisão do U.S.
MEDICAL DEPARTMENT apareceu sob a forma de
editorial em final de julho de 1902 na
publicação MEDICAL NEWS. Em 1917, o
Tenente-coronel MCCULLOCH, bibliotecário do
Departamento Médico, fez o seguinte comentário:
" I think that in this country we pay too
little attenction to the historical and
humanistic side of things. The caduceus or wand
of Mercury now used on the collar of the
uniforme blouse of medical corps has really no
medical bearing wathever". (Eu penso que, neste
País, nós prestamos muito pouca atenção ao lado
histórico e humanístico das coisas. O caduceu de
Mercúrio agora em uso na gola da blusa do
uniforme do Corpo Médico não tem qualquer
significado médico).
O grande
historiador da medicina, FIELDING GARRISON,
também Tenente-Coronel do Corpo Médico no
período de 1917 a 1935, procurou defender a
posteriori a adoção do CADUCEU pelo Departamento
Médico a que servia. Inicialmente, alegou que se
tratava de um símbolo administrativo para
caracterizar os militares não combatentes,
reconhecendo que o símbolo autêntico da medicina
era o bastão de ASCLÉPIO. Posteriormente,
procurou justificar o uso do CADUCEU como
símbolo médico com base nos achados
arqueológicos da civilização mesopotâmica. Nas
escavações realizadas em LAGASH fora encontrado
um vaso talhado em pedra sabão, de cor verde,
dedicado pelo governador Gudea ao deus
NIGINSHZIDA, ligado à medicina. Neste vaso há
duas serpentes dispostas de maneira semelhante a
do CADUCEU de HERMES. GARRISON refere-se à
figura como CADUCEU BABILÔNICO, que teria
precedido o CADUCEU da civilização grega. Em
1932, S. L.TYSON escreveu um artigo na revista
Scientific Monthly, no qual dizia: "The
erroneous symbol of medical profession in
reality is the emblem of the god of thieves" (o
errôneo símbolo, na realidade, é o do deus dos
ladrões). Em resposta, GARRISON voltou a afirmar
que o caduceu fora adotado no Departamento
Médico do exército como símbolo dos não
combatentes e considerou a questão como "uma
fútil controvérsia". Em material informativo
recente de divulgação pela Internet, do Army
Medical Department, encontra-se a seguinte
explicação para a adoção do caduceu de Hermes
como símbolo da medicina: "Rooted in mythology,
the caduceus has historically been the emblem of
physicians symbolizing knowledge, wisdom,
promptness, and skill." (Com suas raízes na
mitologia, o caduceu tem sido historicamente o
emblema dos médicos, simbolizando conhecimento,
sabedoria, presteza e habilidade).
A ASSOCIAÇÃO
MÉDICA AMERICANA manteve o símbolo de ASCLÉPIO
em seu emblema, assim como a maioria das
sociedades médicas regionais norte-americanas de
caráter científico ou profissional. De 25
associações médicas estaduais que utilizam a
serpente em seus respectivos emblemas, 23 usam o
bastão de ASCLÉPIO. São elas as dos Estados de
Alabama, Califórnia, Flórida, Geórgia, Idaho,
Illinois, Kansas, Kentucky, Massachussets,
Michigan, Mississipi, Missouri, Nebraska, New
Hampshire, New Mexico, New York, North Dakota,
Oklahoma, Oregon, Pennsylvania, Utah, Wisconsin
e Wyoming. O CADUCEU é usado pelas associações
dos Estados de Maine e West Virginia.
A ORGANIZAÇÃO
MUNDIAL DE SAÚDE, fundada em 1948, adotou o
símbolo de Asclépio. A ASSOCIAÇÃO MÉDICA
MUNDIAL, reunida em Havana em 1956, adotou um
modelo padronizado do símbolo de ASCLÉPIO para
uso dos médicos civis.
Emblema
adotado pela Associação Médica Mundial para
uso dos médicos civis; a serpente tem duas
curvaturas à esquerda e uma à direita
As organizações
médicas de caráter profissional e de âmbito
nacional de vários países, que possuem emblema
com serpente, adotam, em sua grande maioria, o
símbolo de ASCLÉPIO. Algumas poucas organizações
médicas de âmbito nacional utilizam o CADUCEU de
Hermes em seus emblemas, ou em sua forma
original ou modificado. O CADUCEU estilizado foi
também adotado pelo Serviço Médico da ROYAL AIR
FORCE, da Inglaterra, divergindo do Serviço
Médico do Exército, que mantém seu clássico
emblema com o símbolo de ASCLÉPIO desde 1898,
tendo comemorado o seu centenário em 1998.
Variantes do CADUCEU têm sido igualmente
utilizados, resultantes de duas alterações
introduzidas no modelo original: a primeira
delas consiste em eliminar uma das serpentes,
mantendo as asas ou conservando as duas
serpentes e eliminando as asas (sociedades
médicas, empresas de seguro-saúde). Nos Estados
Unidos, onde é mais difundido o CADUCEU de
HERMES como pretenso símbolo da medicina, o
mesmo é usado em algumas poucas Universidades e
sociedades médicas, sendo mais comum o seu
emprego em hospitais e instituições públicas e
privadas ligadas à saúde, sendo usado
principalmente pelas empresas que vendem
serviços médicos ou gerenciam planos de saúde
naquele país, chegando a 76% de quantas utilizam
a serpente em seus emblemas.
O uso do CADUCEU
de HERMES como símbolo médico é errado. No
BRASIL prevalece o símbolo de ASCLÉPIO. A
ASSOCIAÇÃO MÉDICA BRASILEIRA, assim como as
sociedades estaduais a ela filiadas que possuem
emblema com a serpente, utilizam o símbolo
correto do deus da medicina mas existe uma
disseminação do CADUCEU através dos meios de
comunicação e material destinado a pacientes e
estudantes de medicina. Também os softwares
destinados a hospitais e consultórios médicos,
importados dos Estados Unidos, ou neles
inspirados, muito têm contribuído para a
propagação do CADUCEU, ao utilizá-lo associado a
medicina. E mesmo em revistas e sociedades
médicas recentes a confusão persiste. A educação
custa cara, mas mais cara ainda é a ignorância.
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acesso em 20 jun. 2008